Com perda de memória após doença, mulher registra vida em diários no AC

Luciana Santiago sofreu danos cerebrais após contrair malária, diz médico. ‘As pessoas não sabem como é não conhecer a si mesmo’, conta.

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Luciana registra memórias em diários após sofrer danos cerebrais causados por malária (Foto: Anny Barbosa/G1)

Luciana registra memórias em diários após sofrer danos cerebrais causados por malária (Foto: Anny Barbosa/G1)

 

"Dia 26 de outubro de 2014 eu fui lá para a Mary, comemos e ajudei-a a fazer os relatórios. Foi divertido”. Uma anotação simples em um diário pode parecer banal, à primeira vista, mas para a técnica em saúde bucal Luciana Santiago, de 39 anos, representa a única conexão com o próprio passado. Luciana sofre com problemas de perda de memória média, uma doença que faz com que ela esqueça dias, meses e até anos de lembranças.

 "Olho no espelho e não reconheço a mulher diante de mim"
Luciana Santiago

O neurologista Victor Alvarez, que acompanha o caso da acreana de Cruzeiro do Sul, interior do estado, explica que as perdas de memória são resultado de alterações cerebrais orgânicas, frutos de enfermidades ou traumas. Ele diz que em alguns casos, os pacientes dão conta de sua perda, mas em outros nem sequer lembram de que esqueceram.

Situações como a vivida por ela já foram retratadas no cinema, no filme Como se Fosse a Primeira Vez, de 2004, com Adam Sandler e Drew Barrymore nos papéis principais.

No caso de Luciana, as perdas de memória começaram em 95, quando ela contraiu malária, doença comum na região. Por causa da doença, a mulher, então com 18 anos, sofreu micro-hemorragias no cérebro e entrou em coma. Além disso, ela teve danos na parte frontal do cérebro, responsável por gravar informações.

"Eu era bem nova quando peguei malária, não lembro nada antes e nem depois quando acordei do coma. Passei um ano inteiro em casa, segundo minha mãe, não estudei e fiquei dependente dos cuidados dela", conta.

Anotações vão desde coisas banais a datas importantes, como o aniversário de familiares (Foto: Anny Barbosa/G1)

Anotações vão desde coisas banais a datas importantes, como o aniversário de familiares (Foto: Anny Barbosa/G1)

 

Memórias em papel

Para ajudar a preencher os espaços em branco na memória, Luciana começou, em 2000, a registrar sua rotina em diários, um para cada ano de vida.

“No início eram apenas datas, telefones e informações para ajudar no trabalho, mas depois passei a fazer anotações simples como: hoje vi minha amiga, falamos sobre nossos filhos; minha mãe me ligou; comprei um blusa e outras coisas que se não registradas são perdidas para sempre”, enfatiza.

Do trabalho, na rede municipal de saúde, ela já está afastada há cerca de dois anos, por causa das crises.

"Consegui apresentar um laudo e fui afastada. Muitas pessoas na unidade de saúde em que eu trabalhava já sabiam do problema, mas eu precisava provar. Eu não lembro, mas dizem que eu já tive crises no posto de saúde", salienta.

 

"Ela fica irreconhecível. Outra pessoa mesmo"
Luan Felipe Santiago

 

'Me sinto uma estranha dentro de casa'

A perda de memória também dificultou a vida em família da técnica. Luciana mora em uma casa com o filho Luan Felipe Santiago, de 19 anos, que desde criança acompanha a luta de diária da mãe para poder lembrar de quem é.

"Ela fica irreconhecível. Outra pessoa mesmo. Não lembra onde está, nem quem é. Muitas vezes nem de quem sou eu. Acalmá-la é difícil, mas já consigo com mais rapidez. Ela fica atordoada e contrai muito os músculos. Ela não diz, mas sei que está sentindo dor. O pior vem depois das crises. Ela não lembra de mais nada por dias. Até que relances de memórias e as anotações vão ajudando ela a recordar coisas mais fundamentais”, narra.

Luciana confirma o que o filho conta. "Depois de crises é como se fosse tudo novo para mim. Sinto-me às vezes como uma estranha dentro de casa. Olho no espelho e não reconheço a mulher diante de mim é deprimente", desabafa.

Luan diz que é doloroso ver o estado da mãe, mas tem esperança que as crises acabem ou diminuam. "Tem que ter fé e esperar. Os médicos nunca dão um meio de tratar, mas estamos com ela. E nunca vamos deixar. Eu sei que o amor que sentimos um pelo outro não vai ser esquecido", afirma.

Desde 2000 ela mantém diários para guardar memórias (Foto: Anny Barbosa/G1)

Desde 2000 ela mantém diários para guardar memórias (Foto: Anny Barbosa/G1)

 

Estímulos

De acordo com o neurologista, o quadro de Luciana necessita de acompanhamento constante e estímulos como a escrita no diário para amenizar os efeitos. “É um processo degenerativo do cérebro, no caso dela, as micro-hemorragias ocasionaram o coma que atingiu a parte frontal responsável pela memória. Não há nada a ser feito para cura, mas pode ser melhorado”, salienta.

Apesar da situação, Luciana se considera sortuda e escolheu a alegria para seguir com a vida. “Se eu tivesse uma mente fraca já tinha feito uma loucura, porque as pessoas não sabem como é não conhecer a si mesmo ou o que você faz ou quem você. As pessoas não sabem como é não ter uma identidade, mas mesmo assim continuo seguindo em frente como Deus sabe que sou capaz de fazer”, finaliza.

Fonte: G1

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